Ultra Gaming
Olá, Seja Bem Vindo Cadastre-se no UltraGaming
e Desfrute das Opções.

Por que devo fazer meu cadastro?
Ao se cadastrar você poderá utilizar vários recursos adicionais dos sites dos Diários Associados.

O cadastro é uma assinatura paga?
Não. A utilização de todos os recursos é gratuita.


Você não está conectado. Conecte-se ou registre-se

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo  Mensagem [Página 1 de 1]

Darkness¥

avatar
Moderador


Blood Dragon Review

Apesar de não ser muito mais do que um mod de Far Cry 3, Blood Dragon faz um contraponto bem curioso com o shooter de mundo aberto da Ubisoft. O que é mais real: aquilo “cara” de real ou o que se assume como completamente ridículo?

Longe das ilhas paradisíacas, aqui as coisas são bem diferentes. Você está em um universo paralelo, onde a Guerra Fria chegou às vias de fato, ao ponto de os EUA bombardearem o Canadá com mísseis nucleares. Pior ainda: alguém nesse universo decidiu que luzes ofuscantes de neon e um visual retro-futurista seria uma excelente ideia para decorar toda uma organização militar. E no meio disso temos o Sargento Rex “Power” Colt, o que poderia ser muito bem o nome de um amigo do Max Steel.

Enquanto Jason Brody se apresentava como um protagonista insosso, gente-como-a-gente, o Sargento de Blood Dragon tem uma das personalidades mais inverossímeis que os games de ação já viram ultimamente – no melhor dos sentidos.

Existe um certo senso de realismo embutido no primeiro Far Cry 3. Os personagens são jovens rasos, presos em uma ilha que traz vários problemas para a vida pacata de todos eles, quase que como uma metáfora para a adolescência. Você pode facilmente se identificar com Jason ou qualquer um dos seus amigos.

Já Rex não vê problema nenhum em mandar os outros à merda ou mostrar o dedo-do-meio (sério, tem um botão para isso). Ele faz piadas de humor negro completamente inapropriadas e imaturas, e ainda consegue ser um patriota irremediável. É bem difícil se identificar com um pessoa desse naipe, a menos que você seja o Duke Nukem. Um exagero, que, junto com o próprio ridículo do universo de Blood Dragon, ajuda bastante a construir essa dissociação com o mundo real.

Em primeiro lugar, esse exagero todo serve principalmente para divertir. É bem difícil não rir com os clichês ritmados do roteiro e com o diálogo acéfalo do jogo, especialmente se o seu cérebro foi ricamente nutrido com filmes de ação cafonas dos anos 80. Para quem sobreviveu à Hollywood da Era Reagan (que, aqui no Brasil, se traduz nos clássicos da Sessão da Tarde ou da Tela Quente), Blood Dragon é um prato cheio.

A base são películas como O Predador e Exterminador do Futuro, com seus heróis arrogantes, politicamente incorretos, ridiculamente imbatíveis e desconectados com a sua realidade, como Rambo e John McLane. Todo um estilo de cinema baseado na superação do indivíduo, não importando muito os meios para salvar o mundo no final.

O uso dessas referências de forma irônica é tão direto que Blood Dragon até tem uma daquelas cenas de montagem típicas de Rocky ou Karate Kid, onde o personagem aparece treinando em uma sequência de tomadas curtas e repetidas. Tudo isso acompanhado por músicas carregadas de sintetizadores dramáticos e solos de guitarra feitos em teclados Casio – uma trilha sonora magistralmente composta pelo artista retrô PowerGlove.

No segundo plano, esse efeito humorístico é o gancho necessário para fazer um comentário, simultaneamente feroz e sutil, sobre todo o gênero do qual Blood Dragon faz parte.

O jogo vai no sentido exatamente oposto de uma tendência, já gasta, entre os games de ação. Existe uma paranoia com a criação universos ultra-realistas, habitados por personagens cheios de dramas pessoais que se espalham pelo resto da trama. É normal ver esses esforços indo por água abaixo, em meio a tantos malabarismos conceituais para fazer os jogos se aproximarem com a nossa realidade, e Blood Dragon bate de frente com isso.

Não se acanhe se você já tiver ouvido (ou mesmo pensado) nesse conceito alguma vez: “Dá pra destruir as janelas e paredes! É tudo tão real!” E daí? A necessidade de uma estética ultra-realista em jogos de ação deve estar diretamente associada à diversão da experiência que ele passa? Muitos jogadores naturalmente dizem não a essa pergunta, mas não é o mesmo pensamento que se vê nas contracapas de tantos games de ação por aí. Para o mercado, dizer que a física ou as armas são reais é mais importante do que fazer um jogo bom.




Isso não significa que o realismo em si seja uma estética falida. L.A. Noire soube muito bem construir toda a sua mecânica baseada nas expressões faciais extremamente detalhadas dos seus personagens. A questão é se essa escolha estética casa ou não com toda a proposta do resto do jogo.

Por um outro lado, é questionável a necessidade de incluir elementos reais em jogos como Battlefield, Rainbow Six e até mesmo Far Cry 3. As armas reais montadas pela Bushmaster ou pela Heckler & Koch têm alguma relevância em uma ilha do Caribe cheia de misticismo e piratas psicopatas? É realmente relevante usar exércitos de verdade para representar conflitos imaginários em Call of Duty ou Medal of Honor? Às vezes parece que está cada vez mais difícil de imaginar situações e objetos completamente inverídicos para construir os mundos fictícios dos nossos games de ação.

Blood Dragon é um soco no estômago para combater esse vício de “realismo” que tomou de assalto grande parte do gênero. É um destilado da experiência pura desses games onde só o que sobra são as armas, as explosões e os berros de soldados inimigos caindo na sua frente. E tudo isso embebido em uma grossa camada de fantasia juvenil – e leve ficção-científica – que não tenta em nenhum momento se desculpar pelos seus métodos exagerados.

Depois de muitos anos preso na realidade, é um alívio ver um jogo preocupado em fazer você pirar e apenas ser feliz. Não existe um certo ou errado em Blood Dragon e, por extensão, o game inteiro é um grande dedo-do-meio na cara de quem fica palpitando sobre como as pessoas devem ou não curtir os seus games. Não venha tentar me dizer qual o jeito certo de eu me divertir.




O tutorial de Blood Dragon já mostra bem esse desdém com a cultura de pegar o jogador pela mão: “Aperte A para mostrar que você sabe ler. Olhe para os lados para mostrar que você sabe olhar”, diz o jogo. Assim ele mostra que essas formalidades tão comuns podem facilmente quebrar a experiência de verossimilhança que o outros shooters tentam alcançar. Em Blood Dragon, essa quebra de expectativa é o combustível do humor.

Outra burocracia transformada em piada são todos os objetos colecionáveis. Já parou para pensar como é bizarro, narrativamente falando, que o seu personagem pare no meio de uma sequência dramática de eventos só para passar algumas horas abrindo baús escondidos? Apesar de ter exatamente o mesmo pique de colecionáveis do Far Cry 3 original, Rex Colt quebra constantemente os protocolos de super-herói para comentar como é completamente estúpido e desnecessário ficar coletando coisas inúteis, como fitas VHS plantadas em locais estranhamente estratégicos.

Em certo momento, ele disseca todo o sistema de colecionáveis profundamente inseridos na mecânica dos jogos de ação e aventura: “Então eu tenho que encontrar essas merdas, para abrir umas merdas e então ganhar umas merdas? Saquei”. E sacou mesmo.

Enquanto outra centena de games se esforça ao máximo para ser realista pelo bem da imersão, Far Cry 3: Blood Dragon transforma essa paranoia em uma grande piada travestida de shooter frenético. O que funciona perfeitamente com a proposta de folia legítima de um jogo que não pede nada, a não ser que você se divirta sem limites. E não há absolutamente nada de errado com isso.



Valeu Night:
Ver perfil do usuário

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo  Mensagem [Página 1 de 1]

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum